DestaquesPublicações

Hoje, no jornal Público, Guilherme d’Oliveira Martins escreve um artigo sobre «O outro lado do património.» É um texto que vale a pena ler. Deixamos aqui uma parte dele:

A escolha do Património Cultural como o tema da União Europeia neste ano de 2018 não foi produto do acaso. Correspondeu à necessidade de dar um impulso novo a um projeto comum que não pode avançar sem a memória das raízes históricas e culturais e sem um forte desafio de aprendizagem, de inovação e de modernidade. Quando Plácido Domingo, presidente da Europa Nostra, pede para que simbolicamente todos possamos fazer do Hino da Alegria de Beethoven, com o magnífico poema de Schiller, no dia 9 de maio, um verdadeiro símbolo capaz de unir consciências em nome da liberdade, da igualdade, da diversidade, da paz e da solidariedade, está a dizer-nos que há uma herança comum que temos de respeitar e dignificar. Só a atenção e o cuidado, a salvaguarda e a proteção, o não esquecer e não abandonar podem permitir a abertura de horizontes no sentido do desenvolvimento humano.

(…)

Umberto Eco disse um dia que a diferença entre aqueles que não leem e aqueles que leem é que os primeiros vivem apenas algumas dezenas de anos, enquanto os segundos vivem o tempo da civilização, três ou quatro mil anos. De facto, só seremos dignos do que recebemos das gerações que nos antecederam se soubermos combater a ignorância e a mediocridade através da compreensão donde vimos e para onde vamos.

(…)

Adotar um monumento ou uma tradição (da gastronomia ou do artesanato, da música ou das artes visuais), tornar compreensível um símbolo, impedir que algo de valioso culturalmente seja deixado ao abandono, usar as novas tecnologias para favorecer a ligação aos valores culturais e naturais, ir ao encontro de outras paragens, de outras regiões ou de outras culturas são atos fundamentais… Daí a importância de um culto do património que favoreça o respeito mútuo, o pluralismo, a diversidade e a importância dos valores comuns de culturas diferentes. Tudo isso permitirá entender o património cultural na sua plena riqueza, assegurando que quando terminarmos este Ano poderemos ter contribuído para fortalecer a consciência patrimonial e a cidadania cultural. Nada melhor do que os mais jovens para poderem continuar a tarefa essencial de assegurar que é a sociedade civil que deve assumir em suas mãos a responsabilidade de proteger e valorizar o património. Devendo o Estado garantir o enquadramento rigoroso e incentivador da qualidade, em nome do bem comum.